segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Está chovendo lá fora. Os pingos caem ritmados. Eu gosto do som, me faz ficar sonolenta. E tudo o que eu mais quero é mergulhar na inconsciência.
Está chovendo lá fora, mas a água é doce. Enquanto que a água que escorre aqui dentro, é salgada.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ursinhos de pelúcia também não.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Desejo


Quero passar o dia todo em uma grande banheira com água morna. Quero fazer um pouco de café para mim. Quero rir. Quero beijar você. Quero passar o resto do dia na sua cama. Quero dormir mais. Quero fazer algo bom. Quero impressionar meus pais. Quero fugir. Quero morar longe. Quero ficar perto de você. Quero sentir a água da chuva escorrer pelo meu rosto. Quero lavar a alma. Quero correr como criança. Quero nadar no rio. Quero acordar com você sorrindo porque estou descabelada. Quero brincar com as folhas do jardim. Quero ler suas mãos. Quero jogar baralho. Quero jogar as cartas na sua cara. Quero livros. Quero você dentro de mim. Quero ter uma casa pequena. Quero ficar sentada no quintal e observar o pôr do sol. Quero brincar no balanço. Quero conversar com meus avós. Quero que eles riam. Quero rir quando você cair da nossa cama. Quero um filho seu. Quero vê-lo crescer. Quero cuidar dele. Quero que você cuide de mim. Quero sorrir e perceber que você gosta disso. Quero morrer do seu lado. Ou pelo menos, morrer sabendo que você me ama.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Três Sorvetes para Duas Pessoas


O silêncio no carro era quase palpável. Ele queria dizer alguma coisa. Ela não queria falar sobre nada. Ele queria consola-la, dizer que eles podiam tentar de novo. Mas ele também queria alguém para consola-lo, portanto permaneceu calado. Assim como ela.
- Estou aqui!- o vazio, no ventre dela, gritou.
Só os dois podiam ouvir. E só ela o sentia.
Ela olhava para a janela do carro, enquanto ele dirigia. O dia estava ensolarado, um dia feliz. Um dia perfeito para sair para o parque e tomar um sorvete com os filhos, pensou ela. Mas como o dia podia estar tão perfeito, se ela mesma não via graça em nada.
O carro parou. Ele colocou as mãos sobre as dela.
- Virão outros. - ele murmurou.
- Eu não quero outros, quero este! - ela gritou, tirando as mãos dela das dele. - Eu queria este - ela disse novamente, passando a mão na barriga. E riu, sem graçamente, da ironia. Seu bebê não estava ali, não adiantava apontar ele em sua barriga desabitada. Ele não estava ali. Não estava em lugar nenhum.
Primeiro um soluço, depois dois. Ela chorava e ele também. Se abraçaram. Eles se amavam, tinham um ao outro. E não era suficiente. Faltava alguém.


- Três sorvetes, por favor.
- Amor... Somos apenas nós dois.


Conversas II

- Você devia procura-lo. - ele disse, ofegando.
- Porque? - ela perguntou, sabendo exatamente do que ele estava falando.
- Porque você o ama, eu vejo nos seus olhos.
- Mas...
- Eu?
- É... Você... Eu pensava que você me amava. O que aconteceu com o seu amor por mim?
- Eu... Primeiro eu fiquei bravo porque você tinha se apaixonado de novo por ele. Mas eu acho que você nunca o esqueceu. E agora...
- Agora...?
- Quando você estava com ele...
- O que?
- Você parecia tão feliz.
- Mas eu pensei que você me amasse e quisesse ficar comigo.
- E é pelo fato de eu te amar que estou deixando você livre. - ele disse, entre lágrimas.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Sopro de Vida

Era uma manhã nublada com uma chuva fina, que quase não dava para sentir. O vento embalava as folhas das árvores.
A bicicleta me levava adiante, eu deslizava pelas ruas. De repente, uma poça de água está a minha frente e eu não a vejo. Então tropeço, fico encharcada. Mas não me importo, é a água da chuva. Uma ferida aqui, outra ali, sangue escorrendo de meus joelhos. Não me importo. Volto à bicicleta e vou deslizando de novo, a chuva fica forte, a água lava minhas feridas e elas ardem. Minhas pernas não tem mais tanta força.
Um terreno íngreme surge a minha frente, faço esforço e vou subindo. Meu corpo dói, mas isso me faz refletir. Em nossas vidas há tantas poças d'água e terrenos íngremes, mas nós temos de enfrenta-los. Passar por eles e nos tornar mais fortes.
Então tento me esforçar mais. Subir com mais força, mesmo com as feridas ardentes.
O esforço é bom, faz como que eu me sinta viva. Faz com que eu queira mais.


(Título sugerido por Rômulo Oliveira)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Qualquer Coisa

Os pingos de chuva na janela, a louça suja, os livros jogados no chão, a cama arrumada e vazia, os flocos de chocolate que não dissolvem no leite, a pequena foto na carteira. Para qualquer lado que ela olhe, alguma coisa faz com que ela lembre-se dele. Mas, talvez não seja isso, talvez seja só o fato de que na mente dela só haja ele. E isso a leva à crer que tudo lembra ele.
Ela precisa esvaziar a mente. Precisa pensar no nada. Pois o nada significará a ausência dele. E a ausência dele significará dor. E então, ela terá tempo para apenas se concentrar na dor. E não nele.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Há vezes em que eu gostaria de ter apenas os olhos. Ficar só observando. Não precisar falar.

domingo, 10 de janeiro de 2010

A chuva apertou, encharcando os dois, como se quisesse dissolvê-los em um só corpo, num abraço eterno...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Evaporar


A noite fria se esvaía ao meu redor. A neve se misturava a lama, fazendo-a ficar de uma cor que eu conhecia há muito tempo. Eu já não conseguia me mexer, não sentia as extremidades de meu corpo. Olhava para o lugar ao meu redor, mas não me fixava em nada. Quando a vi, ela já estava perto demais, os olhos azuis da velha senhora assustaram-me. O olhar dela era muito intenso, mas ao mesmo tempo pareciam vazios. Então ela focou em minha mão e vi suas mãos enrugadas entregarem a mim uma caixa de fósforos. A abri e ali havia um único palito de fósforo. Minhas mãos gélidas tremiam incontrolavelmente, eu não iria conseguir acende-lo, a senhora me olhou e era como se tivesse lido meus pensamentos. Acendeu o fósforo para mim e o colocou de volta em minha mão.
Fixei-me no fósforo, achei que talvez, quando ele apagasse eu estivesse morta. Então concentrei-me naquela luz fraca e lenta. Senti a vida se desvanecer em mim. Indo para um lugar que eu não conhecia. Evaporando. Escorregando de meu corpo, como água a escorrer por nossas mãos. O fósforo se apagou.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Copos Vazios

Você dirige a noite toda, eu durmo
Você começa a ficar sonolento, eu acordo
Você cai na calçada, eu tomo meu leite vencido
Você se levanta e vomita, eu lavo a louça
Você volta pra casa, eu saio
Você ronca feito um porco, eu vomito o maldito leite
Você dorme mais, eu volto para casa
Você acorda, eu começo a gritar feito louca
Eu brigo, você briga
Você dá socos na parede, eu começo a comer compulsivamente
Você joga baralho sozinho, eu ouço música
Você murmura algo para a TV, eu reclamo da sujeira
Você bebe, eu bebo mais
E nós brigamos e lutamos
Nossos corpos se encontram, nossas almas se distanciam
Você pede desculpas, eu não as aceito
Você implora, eu cedo
Mas sua alma tem repulsa à minha
Você tira o carro da garagem, eu me deito
Você dirige a noite toda, eu durmo
Você está vazio e eu, oca.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lábios Invisíveis

O gosto veio em minha boca, a lembrança inundou-me, o gosto de seus lábios estavam em minha boca e tudo veio à tona, o sabor veio de uma forma tão forte que me deu ânsia de vômito, era como se eu estivesse beijando seus lábios, invisíveis, afinal ele não estava ali. Ele morrera há alguns anos e eu nunca procurei lembrar dele, para que a dor lancinante não viesse a mim. Mas, por incrível que pareça, a dor não veio e o que senti, acho que foi felicidade, tendo seu gosto em minha mente, mesmo não o tendo ali. E naquele momento percebi que mesmo não estando ali, eu tive a certeza de que ele estava em algum lugar, olhando por mim.

As one

As palavras não saíram da boca dela, tentou murmurar algo, mas não foi possível. Não havia palavras a serem ditas.
Ela sabia que devia correr, ele também e então correram.
Na mesma direção.
Mesmo caminho.

As Melhores Coisas


I wish I could hold your hand now.

Café


O café fumegava em minha frente. Forte, não da cor marrom-chocolate que eu esperava, mas de um preto intenso, escuro. Como minha mente no momento. Havia raiva nela. Impotência e medo. Vontade de corrigir os erros e vontade de abraça-los e errar cada vez mais. Como se nada mais tivesse tanta importância, ninguém mais importasse. Como se a vida fosse passar diante de mim, e eu não tivesse nada a temer. Não havia por quem temer, não havia ninguém.
Então abracei os erros. Abracei-o como quem recebe um ente conhecido. E era o que eles realmente eram pra mim.
Abracei-os e a vida mudou.
Todas as coisas mudaram.
Todas as coisas mudarão de agora em diante.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Deleite

Naquele pequeno espaço abafado e sem ventilação, havia livros, montes deles. O lugar quente era desconfortável, eu suava sem parar. Minúsculos pingos de suor escorriam por minhas costas, eu parecia sentir cada um deles.
Sentada, escorada em uma da estantes, avistei um livro, pequeno e quadrado. Muito branco, lembrando neve. Levantei-me, preguiçosamente, indo em direção ao livro. Quando peguei-o, descobri que seu nome era 'Leite'.
Em algum tempo, já estava deitada na abafada livraria, deliciando-me com a leitura do livro. Saciando a sede de conhecer novos mundos, como vida escorrendo para dentro de mim. Estava sentindo o gosto do leite em minha boca, descendo pela garganta, diluindo-me completamente.

Conversas I


- No que está pensando agora?
- Eu realmente não sei.
- Como pode não saber? É o que você está pensando, só você pode saber.
- Bom, eu estava só vagando.
- Então, me diga, eu gostaria de saber.
- Por que?
- Só curiosidade.
- Então... Deixa eu ver... Eu estava pensando sobre as árvores.
- As árvores?
- É, as árvores. Sobre quando as folhas deixam as árvores, elas as deixam quando estão preparadas,
- Como preparadas?
- Você sabe... Quando elas estão amarelas... Ou vermelhas... Depende.
- Ah.
- Então... Eu estava pensando que nós devemos deixar nosso lar, quando estivermos preparados... Maduros...
- Então você pretende deixar seu lar?
- Quando eu estiver preparada.
- E quando vai estar preparada?
- Eu não sei... Eu penso que é algo que você vai sentir.
- Mas quando vai sentir isso?
- Eu não sei nem se vou sentir isso.
- Então você está perdida?
- Como eu sempre estive.
I see you